quarta-feira, 26 de maio de 2010

Filósofo de beco

Bola-Sete é filósofo de beco.
Marimbondo faz casa no seu grenho – ele nem zine.
Eu queria fazer a biografia do orvalho – me disse.
E dos becos também.
É preciso refazer os becos, Senhor!
O beco é uma instituição que une o escuro do homem
com a indigência do lugar.
O beco é um lugar que eleva o homem até o seu melhor
aniquilamento.
Um anspeçada, amigo meu, de aspecto moscal, só
encontrou salvação nos becos.
Antoninha-me-leva era Eminência nos becos de Corumbá.
Senhor, quem encherá os bolsos de guimbas, de tampinhas de cerveja, de vidrinhos de guardar moscas senão os tontos de beco?
E quem levará para casa todos os dias de tarde a mesma solidão – senão os doidos de beco?

(Algum doido de beco me descende?)

Manoel de Barros

Um comentário:

  1. Engraçado que esse poema poderia ser facilmente do Bukowski, né? hahahahaha. Se bem que eu acho que ele seria menos... ah, sei lá. Menos Manoel e mais Charles. Tô falando isso porque comprei um livro de textos autobiográficos dele e são todos muito legais:

    "uma garota disse que
    assim que o arco-íris
    apareceu
    ela viu a face de Deus
    numa das extremidades.
    esqueceu apenas de dizer
    em qual delas."

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